Injustiçado por boa parte da crítica, “Civil War” (Guerra Civil) garantiu um espaço cativo na minha lista pessoal de filmes importantes. [CONTÉM SPOILLERS]
mai 24, 2026

“diante da violência extrema de um conflito civil, a ideologia se torna irrelevante. O que sobra é a sobrevivência, o fogo e o enquadramento de quem fica para registrar a barbárie.”
Confesso que, quando foi lançado, eu o excluí da minha lista de interesses antes mesmo de dar o play. “Não tem contexto”, era o que mais diziam. Esse pré-conceito colocou o filme na minha geladeira mental por um longo período. Até que, num desses dias em que o tédio existencial se mistura à saturação de conteúdos — zapeando indefinidamente o catálogo —, a obra me apareceu nas recomendações. Sem paciência para escolher, resolvi assistir, totalmente cética.
Na metade do filme, eu já estava rendida. “Filmão”, pensei comigo.
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A conclusão a que cheguei é que alguns filmes cobram do espectador um letramento fílmico prévio — um olhar treinado para capturar as entrelinhas e a semiótica. Cada detalhe comunica informações não verbalizadas, que entregam o tão cobrado “contexto”.
A verdade é que o contexto está lá, mas a história é essencialmente sobre fotojornalismo e a jornada de criação de uma profissional imersa no caos. O roteiro homenageia abertamente a fotógrafa e modelo Lee Miller, uma mulher que cravou seu nome na história ao documentar as atrocidades da segunda guerra mundial. Não à toa, Lee é a xará da personagem de Kirsten Dunst, a fotógrafa veterana inserida no cenário distópico do filme.
No centro da narrativa temos Jessie (Cailee Spaeny), uma jovem que ambiciona realizar registros de guerra tal qual sua heroína. Acompanhar a trajetória dela é presenciar uma tragédia que se confunde com uma vitória profissional perturbadora: a sua consagração ocorre ao registrar, a sangue-frio, a morte de sua mentora e a execução do presidente. O filme escancara que, na fotografia (e na guerra), tudo é uma questão de enquadramento — algo belamente ilustrado na cena das flores roxas, que contrasta a beleza e o horror.
A obra também expõe nas entrelinhas uma sutil lógica machista nas interações do trio de jornalistas. Enquanto as mulheres lidam com o peso ético e emocional do registro histórico, Joel (Wagner Moura) inicia a jornada de forma quase aventureira e brincalhona. É apenas quando o contexto extrapola os limites do suportável que a armadura da “imprensa” racha.
Uma das sequências mais devastadoras é a morte de Sammy (Stephen McKinley Henderson). Após salvar o grupo de uma milícia em um ato heroico, ele é tragicamente baleado na fuga. Enquanto o carro atravessa uma área tomada por incêndios, o fogo que tudo consome é admirado com um olhar quase infantil. É nessa mesma sequência que Wagner Moura entrega uma atuação brilhante, mostrando o terror da guerra quebrando um profissional que achava já ter visto de tudo.
A crítica de que falta “contexto” a Civil War perde o sentido quando entendemos a mensagem central de Alex Garland: diante da violência extrema de um conflito civil, a ideologia se torna irrelevante. O que sobra é a sobrevivência, o fogo e o enquadramento de quem fica para registrar a barbárie.
É uma obra socialmente engajada, visceral e livre de clichês apelativos.
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