O alto custo das trincheiras em “One battle after another”

YASMIN PEDROSA

mai 29, 2026


Por trás de toda a cadeia de conflitos do thriller e do discurso que ele produz, há uma constatação muito mais simples e humana: a de que, talvez, se fôssemos despidos das ideologias que impregnam e adoecem as relações sociais, as pessoas poderiam simplesmente se amar.

Embora seja repleto de cenas de ação e permeado por uma dinâmica veloz, o filme é cheio de camadas. O diretor é objetivo, mas sem deixar lacunas no roteiro que façam o público sentir falta de substância histórica. Nesse sentido, cada frame é intencional e carregado de significado.

A plástica do thriller merece um destaque especial. Com a direção de fotografia de Michael Bauman (premiada no Oscar e no BAFTA), o filme coleciona quadros espetaculares, daqueles que enchem os olhos, marcam a retina e poderiam facilmente ser emoldurados na parede de casa. O visual opera no ápice do impacto em cenas que são puro lacre, no melhor dos sentidos. Duas delas se destacam com força avassaladora no deserto: a primeira, quando Perfídia surge grávida disparando uma metralhadora; a segunda, quando o capitão Steven J. Lockjaw (Sean Penn) caminha, já com o rosto destruído por um tiro, envolto por um círculo de luz e cores que transformam sua ruína em pura potência estética. Essa alquimia entre um roteiro forte, atuações brilhantes e enquadramentos precisos faz com que até a cena mais agônica se torne bela.

Existe um argumento, quase central na obra, de que “esse lance de ser supremacista branco é uma péssima ideia”. Mas o filme não se esgota nessa obviedade. Por trás de toda a cadeia de conflitos do thriller e do discurso que ele produz, há uma constatação muito mais simples e humana: a de que, talvez, se fôssemos despidos das ideologias que impregnam e adoecem as relações sociais, as pessoas poderiam simplesmente se amar.

Por outro lado, é impossível ignorar o apelo do “Viva la revolución”. No fundo, sabemos que existe uma necessidade urgente de mudança estrutural e que algo precisa ser feito. Embora o grupo French 75 não seja uma organização real, o tema do narcoterrorismo vem ganhando grande atenção global devido às atuais políticas do governo norte-americano. Portanto, o filme discute urgências contemporâneas e toca, de maneira cirúrgica, na fragilidade do poder opressor. O roteiro, contudo, evita falsas simetrias: o contraste ideológico é jogado na nossa cara a partir das atitudes dos personagens, divididos claramente entre os que nutrem propósitos mesquinhos e os que alimentam um ideal de liberdade.

Outro ponto que saltou à minha análise foi a recepção prévia da obra. Antes mesmo de eu ver o filme, o tratamento dado à personagem Perfídia Beverly Hills (Teyana Taylor) já acumulava críticas relativas à sua hipersexualização sob o viés do olhar masculino (male gaze). De fato, Perfídia encarna o arquétipo da femme fatale, algo realçado pela beleza e presença magnética da artista. No entanto, é preciso notar que Perfídia também é uma lutadora, dominadora e empoderada, representando apenas um perfil dentro de um elenco composto por várias mulheres negras — figuras diversas entre si e fundamentais para o desenvolvimento da trama.

Enquanto o grupo French 75 muitas vezes soa pueril e alienado da realidade, o núcleo familiar de Perfídia ancora o espectador ao evidenciar quem tem e quem não tem o privilégio de escolher se quer ou não lutar. Nesse ponto, o roteiro subverte o tropo clássico da “mulher negra inadequada para o homem branco”. Aqui, é Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio) a figura inadequada para acompanhar o ritmo de uma mulher preta de luta.

Um olhar mais tradicional identificaria o núcleo composto por Bob, Perfídia e Willa como o ambiente sacro da família nuclear, capaz de dissuadir qualquer pessoa da subversão. Mas, por dentro, Perfídia não se sente feliz — o puerpério a pegou de jeito. Ao mesmo tempo, Bob, apesar de não conseguir realizar uma tarefa simples como arrumar um cabelo, revela-se um cara bacana, amoroso e um bom pai, mesmo enfrentando a adicção. Essa abordagem sensível, inclusive, aponta para um debate de inclusão no qual os norte-americanos parecem um pouco à frente de nós, conduzindo um movimento de humanização que não se restringe a nichos, mas abraça as complexidades da diversidade.

Toda essa jornada culmina em um final feliz banhado em profunda ironia. Steven J. Lockjaw, que poderia ter uma vida estável, joga tudo para o alto para ser um cavaleiro natalino. Para não ser injusta, a única atitude positiva na trajetória do capitão acontece em um diálogo com Willa (Chase Infiniti) no qual ele nega que Perfídia tenha sido uma traidora. Ao defender a honra dela, Lockjaw revela uma ambiguidade, que funciona quase como uma ode às escolhas tristes. No fim, mesmo sobrevivendo aos fronts principais, ele acaba morto pelo próprio grupo supremacista, asfixiado pelo mesmo gás usado no extermínio de judeus em Auschwitz. É a justiça poética definitiva da narrativa: a própria ideologia destrói quem a defende, reafirmando que ser supremacista branco é, de fato, uma péssima ideia.

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