Como Zach Cregger usa o suspense para expor a violência silenciosa e subverter as expectativas.
mai 28, 2026

“Com Cregger, a gente tende a não lamentar as baixas, porque elas sempre se desenvolvem no roteiro como uma espécie de justiça cármica.”
Recentemente, falei aqui sobre o filme “Barbarian”, que assisti motivada pelo thriller “A hora do mal” e com o intuito de conhecer mais da obra do diretor norte-americano Zach Cregger.
Bom, como gosto de terror e suspense para além dos sustos óbvios e da violência pela violência, o diretor logo conquistou a minha atenção. E isso não só porque os roteiros usam o horror para colocar temas atuais na mesa, mas também por conta da forma de contar histórias.
Uma das coisas mais interessantes em “A hora do mal” é que se trata de uma narrativa não linear, dividida em blocos que operam como uma mudança de perspectiva, abordando a história sob quatro ângulos diferentes. O roteiro se repete, mas essa dinâmica traz toda uma dose extra de curiosidade e expectativa, o que nos mantém grudados à tela do início ao fim.
É uma narrativa que opera pelos detalhes — detalhes que, em doses homeopáticas, vão nos guiando rumo ao desfecho quase epifânico do mistério.
Algo que chamou muito a minha atenção em “A hora do mal” foi o tratamento dado à personagem Justine (Julia Garner), bem como a dinâmica dela em sua interação com os outros personagens, em sua maioria, homens.
Justine é alvo de um tipo pernicioso de misoginia, daquele que passa despercebido nas interações do dia a dia. Ninguém diria, a olho nu, que uma Justine da vida estaria sendo vítima de uma violência generalizada, que parte de absolutamente todos os lados.
Enquanto praticamente toda a comunidade acusa Justine de estar envolvida no mistério, Paul, um policial descompromissado e marido infiel, a encontra clandestinamente em um bar, bancando o cara legal e amigo inocente — do tipo que brinca com a percepção de realidade de uma mulher reagindo a uma situação objetiva.
Logo de cara, a gente vê que o Paul é um canalha. Como tal, ele se aproveita da vulnerabilidade de Justine para se satisfazer sexualmente enquanto a esposa viaja, para depois agir como alguém coagido pela bebida a uma situação indesejada.
Justine é a única pessoa, além de Archer (Josh Brolin), que realmente se importa em solucionar o mistério. Como Paul é policial, Justine aborda o assunto, e a resposta evasiva dele gera uma discussão. (Até aí, já sabemos que as autoridades abafaram o caso, constrangidas com a tão evidente incompetência em trazer respostas à população).
No final das contas, Justine é a grande heroína, e as mortes — brutais — não acontecem sem que a gente antes constate na vítima alguma flagrante falha de caráter. Ou, no mínimo, como no caso de Marcus (Benedict Wong), uma simples omissão com consequências trágicas — o que amortece aquele efeito de luto fílmico por algum personagem bacana que morre precocemente. Com Cregger, a gente tende a não lamentar as baixas, porque elas sempre se desenvolvem no roteiro como uma espécie de justiça cármica.
Bom, se você é do tipo que ama filmes de terror e não se importa com cenas de violência extrema, “A hora do mal” é uma excelente pedida. Isso porque, além do que já mencionei, ele não é o tipo de terror óbvio e clichê, daqueles que logo de cara você bufa pensando “mais do mesmo”. Cregger é mestre na quebra de expectativas. Além disso, a montagem, o design sonoro e a trilha musical merecem um destaque especial e são os elementos-chave que elevam os filmes de Zach Cregger a outro patamar.
Deixe um comentário