jul 03, 2026
Quem passou dos 30 sabe: a vida ganha outro sabor. Não falo de tragédia, nem de prosperar ou não; falo de experiência, das coisas que nos atravessam e dos traumas inerentes à condição humana. Tudo isso somado quantifica o peso da nossa bagagem, que agora também é preenchida por trabalho, boletos e família.
Este roteiro serve de caminho para compreendermos a vida social e os laços de amizade depois dos 30. Eu gostaria de problematizar isso sob a minha ótica de quem enfrenta a sobrecarga materna, mas acredito que o tema mereça outro tipo de abordagem: a do higienismo social.
Tem gente que se aproxima e se afasta não por razões honestas, mas porque, a certa altura, as conexões tornam-se estratégicas. Não quero subestimar o peso de um bom networking, mas perder a essência e tornar-se alguém tão superficial, a ponto de nenhuma conexão ser estabelecida de forma genuína, é uma forma de matar a própria humanidade.
Não quero julgar os meios de sobrevivência de cada um, sobretudo daqueles que, longe da linha de chegada, são quase coagidos pelo capitalismo e pelo discurso do status quo a assumir essa postura predatória. Afinal, nem todo mundo tem o privilégio de viver carregando valores inegociáveis. No corre da sobrevivência, tudo se negocia; é por isso que gente que sobrevive, muitas vezes, não é confiável. O desespero ou a necessidade urgente de sair da base estabelecem um jogo duro de “tudo ou nada”.
E aí entra outro ponto: o alpinista social ascende e se torna ainda mais intransigente com os seus ex-iguais. É uma vida de aparências e máscaras. Gente assim nunca se posiciona; tem medo de defender o que é certo e se queimar. Quanto maior a curva ascendente, maior a necessidade de se adequar, absorvendo valores contraditórios e, até mesmo, críticos.
Foi assim que algumas amizades morreram para mim. Não pela distância, não pelos corres da vida adulta… Mas por conta de valores.
Se eu sento numa mesa de bar e vejo você dissecar a vida sexual de uma mulher que não está presente, você não serve para andar comigo.
Se chega ao seu conhecimento uma violência e você mantém um agressor no seu círculo, preferindo excluir a vítima, você não serve para andar comigo.
Se a minha maternidade for um fracasso aos seus olhos, eu não quero você sentado à mesa comigo.
Se você trabalha e fecha contratos com abusadores reconhecidos, você não serve para andar comigo.
Sabe? É sobre… E com certeza, eu não invejo nem um pouco isso. Quando somos bem resolvidas entendemos os limites das suposições. Talvez algumas informações possam massagear o ego, mas é preciso cautela, para não dar atestado de falência múltipla da moral.
Inveja é natural do ser humano, e ela surge não sobre aquilo que pode ser construído, mas sobre coisas que são intrínsecas a outro ser e que não podem ser conquistadas com esforço.
Nesse imbróglio, cada um oferece o que tem. Quando as amizades morrem, eu guardo os segredos, porque a minha ética não se abala facilmente — o que, infelizmente, não é uma regra geral. Então, fica aqui o desabafo e a dica: para quem quer estar na nossa vida, não existem desculpas, existe presença.
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