Um ensaio sobre nostalgia, efeitos visuais e a ruína do ego.
jun 04, 2026

Dia desses me lembrei, assim, de forma repentina e aleatória, de um filme icônico dos anos 1990 — um clássico que tive o privilégio de assistir com a minha mãe quando eu ainda era criança. E lá fui eu caçar essa relíquia (disponível no Telecine Play) para realizar uma sessão de cinema doméstico carregada de nostalgia.
Aline Anne, minha mãe, falecida em 2019, foi a pessoa que plantou em mim essa paixão pela sétima arte. Além de cultivar nossa cinefilia, ela também teve uma breve e prolífica carreira como artista plástica, que durou, mais ou menos, de 1990 a 2002 (data do último quadro que ela pintou).
Nesse contexto, assistimos a muitos filmes e criamos muita arte juntas. Entre as produções mais marcantes da minha memória afetiva infantil, destaca-se “A Morte Lhe Cai Bem”. Quando o filme foi lançado, eu tinha exatamente dois anos de idade — ainda um bebê. Acho que o assisti lá pelos quatro anos e o guardei na memória como um dos filmes de que mais gostei na infância.
Lembro que o que me cativou na época, além da narrativa fantástica, foram os efeitos visuais, que aos meus olhos pareciam inacreditáveis. Naquela época, eu não fazia a menor ideia de que “A Morte Lhe Cai Bem” havia sido premiado na categoria de Melhores Efeitos Visuais na edição do Oscar de 1993.
“A Morte Lhe Cai Bem” é uma obra de horror satírica que foi pioneira no uso de efeitos visuais digitais (CGI) para a modificação e a reconstrução da anatomia humana nas telas.
Sob a direção de Robert Zemeckis e com o trabalho da lendária Industrial Light & Magic (ILM), o longa quebrou barreiras técnicas ao criar texturas de pele totalmente digitais para exibir corpos mutilados e retorcidos de forma fotorrealista — como o icônico pescoço torcido de Meryl Streep ou o rombo na barriga de Goldie Hawn.
Essa revolução tecnológica não apenas garantiu a estatueta da Academia, mas também pavimentou o caminho para o uso da computação gráfica moderna no cinema de Hollywood.
O enredo gira em torno de temas como envelhecimento, vaidade e disputa de egos — uma dinâmica manifesta tanto na obsessão das protagonistas em alcançar a beleza e a juventude eterna quanto na rivalidade implacável pelo amor de Ernest Menville (Bruce Willis).
Também destaco o excelente trabalho de montagem do filme, especificamente na construção do ritmo cômico por meio da justaposição por colisão — a chamada montagem dialética.
Logo no início, há uma cena em que a personagem Helen Sharp (Goldie Hawn), até então noiva do Dr. Menville, o questiona sobre um encontro com sua rival. Menville jura de pés juntos que a reunião se dará estritamente sob a condição de médico e paciente, afirmando não ter o menor interesse na figura de Madeline Ashton (Meryl Streep).
Na cena seguinte, unida à anterior por um corte abrupto — o clássico smash cut, que na comédia ganha o nome de Gilligan Cut (ou o corte de recusa) —, o Dr. Menville surge radiante em sua própria festa de casamento com a mesma Madeline.
Essa elipse temporal drástica não apenas economiza tempo de tela, mas gera uma ironia dramática instantânea, arrancando excelentes risadas do público ao escancarar visualmente a hipocrisia do personagem.
No fim, ninguém sai ganhando. A obsessão implacável das protagonistas é, ao fim e ao cabo, o que as leva à própria ruína.
Deixe um comentário