Sobre violência, narrativa e o peso desigual da moral
jun 27, 2026

The Drama é um filme denso, repleto de subtextos. Sob o pretexto do relacionamento entre Emma (Zendaya) e Charlie (Robert Pattinson), o roteirista e diretor Kristoffer Borgli nos convida a uma reflexão sobre violência e massacres escolares, direcionando nosso olhar para camadas mais profundas e menos reducionistas sobre o que, afinal, motiva tais atentados e se quem os realiza é, inerentemente, um psicopata.
É uma quebra de expectativa gigantesca para quem esperava apenas mais um drama romântico com discussões óbvias. O longa segue pelo caminho do inesperado, surpreendendo ao trazer o incômodo levantado pela obra para o campo da reflexão pessoal. Ao abusar da ironia e do viés cômico, o filme desloca o desconforto para um lugar onde o espectador não consegue se acomodar facilmente.
A tensão central do filme surge às vésperas do casamento, quando Emma e Charlie degustam o menu do grande dia com um casal de amigos. É nesse momento que surge a proposta de cada um revelar a pior coisa que já fez na vida. As histórias vão escalando até chegar a Emma, que confessa que, aos 15 anos, planejou um massacre na escola.
Todos ficam atônitos. Entre o grupo, Rachael (Alana Haim) é a mais rigorosa, e Charlie mergulha em uma tensão permeada por dúvidas que só encontram fim no desfecho. A revelação de Emma funciona como uma verdadeira “travessia do Rubicão” para um relacionamento que, até então, parecia perfeito. Charlie tenta compreender as razões da companheira, chegando a cogitar a influência de traumas que, no fim, ele mesmo ajuda a construir para justificá-la.
Nesse emaranhado, Emma entrega sua versão: uma adolescente deprimida e excluída que, romanticamente seduzida pela violência dos filmes de ação e pelo acesso às armas, planeja o ato. Justificada pelo bullying sofrido, ela prepara o massacre, ocasião em que, durante o treinamento, estoura os próprios tímpanos, perdendo a audição.
No entanto, Emma acaba não realizando o plano. Um massacre real ocorre na escola e a mobilização entre os estudantes a aproxima dos colegas. Ao ser acolhida nesse círculo de amizade, ela adota um discurso contrário às armas, o que é interpretado pelo grupo como hipocrisia, quando, na verdade, fica evidente tratar-se de um movimento de redenção.
Contudo, existe um ponto de incômodo que o filme parece não enfrentar com a mesma profundidade que sugere. Há um rigor evidente na forma como Emma é julgada dentro da narrativa — e, por extensão, pelo próprio olhar do filme — que não é aplicado com a mesma intensidade aos outros personagens, cujas condutas também são eticamente questionáveis. Enquanto estes são complexificados com naturalidade, Emma permanece sob um microscópio moral mais severo, mesmo quando sua trajetória aponta para uma experiência atravessada por dor, isolamento e pela fetichização da violência em um imaginário ainda infantil.
É importante lembrar: estamos falando de uma adolescente. Uma criança em termos de formação psíquica e emocional, que fantasia a violência muito mais como linguagem simbólica de potência e resposta ao sofrimento do que como projeto concreto de mundo.
Ainda assim, a sensação que permanece é a de que sua virada de postura — de alguém que romantiza a violência a alguém que a rejeita — é lida menos como um movimento de elaboração e redenção e mais como incoerência ou falha moral.
É justamente aqui que o filme se torna mais interessante e, ao mesmo tempo, controverso: ele parece disposto a explorar a ambiguidade da violência apenas até o ponto em que ela não desestabilize demais a figura feminina central. Quando isso ocorre, o desconforto já não é mais distribuído de forma equânime entre todos os personagens; ele se concentra nela.
O resultado é um incômodo persistente: não apenas sobre o que Emma fez ou deixou de fazer, mas sobre como certas narrativas ainda parecem exigir das personagens femininas, sobretudo negras, um grau de coerência moral que os demais não são chamados a sustentar.
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