Uma análise sobre a anatomia da manipulação e o descrédito da vítima em “A Empregada”
jul 10, 2026

“A Empregada” é um suspense psicológico cheio de reviravoltas de tirar o fôlego. Apesar das críticas sobre furos no roteiro e na condução do mistério, a atuação de Amanda Seyfried merece destaque: ela flutua entre a patroa perversa e a mulher frágil com absoluta naturalidade.
Mais do que a forma fílmica, o que me chamou a atenção foi o conteúdo. No fim das contas, o grande horror da obra é a violência doméstica, e o interessante é que ela não é óbvia — pelo menos não até termos provas cabais de quem é, de fato, o vilão da história.
O que o filme entrega até a metade é uma patroa cruel e instável, que alterna entre momentos de gentileza e pura loucura, algo que condiz com a imagem social da personagem. Como já sou gata escaldada, sempre desconfio de “megeras gratuitas”; por isso, logo de cara, suspeitei daquele marido bonzinho, tolerante demais com a esposa desequilibrada. Já no primeiro piti dela, eu me perguntava: “o que gerou esse comportamento nessa mulher?”.
Depois, colecionei viradas de olho com a Millie (Sidney Sweenie) — a clássica iludida que compra o papo de um narcisista —, para logo em seguida vê-la transitar pela “síndrome da escolhida”, da qual ela se arrepende amargamente.
O longa joga na cara do espectador várias situações de machismo que passam batido ou são naturalizadas no cotidiano. Geralmente, quando nos inserimos em um círculo de fofoca sobre a conduta feminina, tendemos a validar ataques sem perceber que eles compõem um processo sistemático de violência. É o isolamento social, oriundo do ataque constante à moral de uma mulher que, descredibilizada, se vê sem saída diante do abuso.
A história, baseada na série de romances de Freida McFadden, entrega mistério e suspense na medida certa. No fim, fica nítido que mulheres fragilizadas pela vida tornam-se alvos fáceis de narcisistas e manipuladores, aptos a enredá-las em um ambiente de extrema violência sem que, para isso, arranhem a própria imagem ou deem o menor atestado de agressor.
Nesse ponto, preciso levantar uma crítica: não gosto desse discurso que culpabiliza quem, na realidade, é a vítima. No mais, esse argumento de “mulheres vulneráveis” cai por terra diante de tantas polêmicas misóginas que vemos no epicentro do alto escalão acadêmico. Então, sim, o filme funciona, mas com ressalvas.
É aí que entra o grande mérito da protagonista, que parece encontrar naquela função o seu melhor desfecho, em algo que a empodera, e não o contrário. Afinal, como a própria Millie diz: “empregada apenas para as famílias certas”.
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