YASMIN PEDROSA

Depois da Caçada e a continuação do trauma

Uma análise sobre adoecimento e revitimização institucional.

YASMIN PEDROSA

jul 13, 2026


Mulher com cabelo loiro e longo, usando um blazer escuro, com um olhar sério em um ambiente externo. Ao fundo, várias pessoas são visíveis, mas desfocadas.

Em Depois da Caçada (2025), Luca Guadagnino não apenas dirige um suspense psicológico ambientado nos corredores prestigiados da Universidade de Yale; ele revela a engrenagem silenciosa da revitimização institucional. Julia Roberts entrega uma atuação de vulnerabilidade quase insuportável, expondo uma realidade em que a violência — psicológica e sistêmica — parece não poupar nem mesmo mulheres de alta formação e prestígio acadêmico.

O longa já se inicia como uma bomba-relógio. A trilha sonora não serve apenas como acompanhamento: ela estabelece um tique-taque constante, criando a sensação de que algo está prestes a desmoronar. Existe uma tensão permanente, como se o equilíbrio dos personagens pudesse ser rompido a qualquer instante.

Logo nas primeiras cenas, somos confrontados com um diálogo típico de um homem branco, hétero e pertencente à elite intelectual, que teoriza sobre as relações de poder. A resposta das mulheres presentes — firme, articulada e sem concessões — é, sinceramente, uma das cenas mais brilhantes que vi no cinema nos últimos anos.

Assisti ao filme por acaso. Dei o play apenas porque Julia Roberts está no elenco, sem ler a sinopse ou críticas. Eu mal imaginava que aquela sessão me atravessaria de forma tão profunda.

Recentemente, vivi uma situação em que o paralelo com a ficção se tornou inevitável. Assim como acontece no filme, enfrentei não apenas o dano original, mas também a violência produzida pelas próprias instituições que deveriam acolher, investigar e oferecer respostas.

Foi por isso que Depois da Caçada passou a ocupar, para mim, o mesmo lugar de O Conto da Aia. São obras de enorme potência artística que estabelecem diálogos urgentes sobre as violências estruturais de gênero. Ao mesmo tempo, o realismo com que tratam esses temas pode ser profundamente desencadeador para quem ainda está elaborando experiências semelhantes.

O filme nos conduz, deliberadamente, à leitura mais previsível dos acontecimentos. Em determinado momento, eu mesma passei a desconfiar da protagonista. Quando a verdade começa a emergir, porém, o desconforto deixa de estar apenas na história e passa a habitar o espectador. A dúvida já foi instaurada — e isso diz muito sobre a forma como fomos ensinados a interpretar o relato de uma mulher.

Ao final, Depois da Caçada deixa uma pergunta difícil de ignorar: quantas mulheres passam anos minimizando, racionalizando ou até negando a própria violência como estratégia de sobrevivência? O trauma, afinal, não desaparece porque escolhemos não olhar para ele. Ele encontra outras formas de permanecer, deixando marcas no corpo, nos vínculos e na própria percepção da realidade.

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