YASMIN PEDROSA

Por que “Devoradores de Estrelas” me conquistou?

Notas sobre a vida, o cinema e o desejo inabalável de continuar.

YASMIN PEDROSA

jul 15, 2026


Pôster do filme 'Devoradores de Estrelas' com um homem de cabelo loiro e óculos, deitado e olhando para a câmera, cercado por elementos cósmicos.

Devoradores de Estrelas não foi apenas eleito a melhor ficção científica de 2026, mas, pessoalmente, já carrega o título de um dos filmes mais fofos e delicados que assisti nesta temporada. E olha que a concorrência nesse quesito é alta, mas a estrela de hoje é ele.

Primeiro, é preciso falar da escolha do elenco. Ryan Gosling sempre entrega jovialidade e carisma, mas aqui ele vai além. Seu Dr. Ryland Grace é um herói magnético justamente por não ser infalível. A narrativa foge do clichê do super-humano indestrutível e aposta no contrário: um perfil totalmente humanizado, cheio de dúvidas e falhas, exatamente como qualquer um de nós. É impossível não se identificar.

Outra que merece destaque é a digníssima Sandra Hüller. Conhecida por interpretar personagens austeras, ela mantém essa marca registrada, mas foi fascinante vê-la atuar em uma narrativa mais leve, na qual sua personagem se permite momentos de delicadeza na medida certa. Ela entrega uma atuação autêntica e visceral, sem nunca descambar para o forçado.

Uma das cenas mais bonitas do filme, inclusive, é protagonizada por ela, em um solo de arrepiar, carregado de tensão emocional. É uma espécie de “confraternização da firma” — só que, neste caso, com muitas baixas esperadas. É em meio a esse contexto mórbido de karaokê que Eva Stratt solta um belíssimo solo de Sign of the Times, tornando-se um dos momentos mais surpreendentes e inesquecíveis do longa.

Além das atuações, outro ponto que me chamou a atenção foi a recusa ao clichê do salvador solitário ou de potências hegemônicas. Devoradores de Estrelas aposta na cooperação internacional. O filme dispensa heróis “salvadores da pátria” global e foca no esforço coletivo.

A própria relação do Dr. Ryland Grace com Rock, o eridiano rochoso e fofo, é a prova disso: o roteiro desconstrói a premissa colonialista e predatória em favor de uma relação genuína de cooperação, respeito mútuo e aprendizado.

Outro aspecto do longa que me fisgou foi a grande metáfora da vida que ele constrói. Quando descobrimos que o predador do astrofágico é, nada mais, nada menos, que a própria vida, somos levados a uma epifania potente.

É como se, assim como o astrofágico, a nossa própria existência fosse “invencível”. Não no sentido literal ou heroico, claro, mas invencível na capacidade de persistir. A vida é, por definição, o que consome o caos para continuar acontecendo. Ela vence pelos desafios inerentes, pela resiliência biológica e pelo simples, mas inabalável desejo de continuar existindo.

É um filme com uma mensagem urgente e bonita. Um desses raros casos onde a ficção científica nos ensina algo sobre o nosso cotidiano: a vida não é apenas algo que a gente vive; a vida é, por si só, a força que devora qualquer obstáculo no caminho.

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