Uma análise sobre lugares onde a humanidade não sobrevive.
jul 16, 2026

Hoje eu vou falar de Promising Young Woman (2020) e tentar entender por que a Emerald Fennell sempre mata a Carey Mulligan em seus filmes. Pois é, Fennell, a diretora que tem como assinatura a construção de ambientes lindos e intimamente podres, é uma das minhas favoritas do cinema contemporâneo.
Para começo de conversa, o título original do filme, em tradução livre, remete a um clichê utilizado pela imprensa em obituários para descrever algo como “a perda de uma jovem promissora da comunidade”. O que já dá o tom da narrativa: a história da derrocada de duas jovens promissoras, em uma trama que usa a vingança como uma forma de justiça restaurativa.
Tudo gira em torno de Cassie (Carey Mulligan), uma mulher de trinta anos que largou a faculdade de medicina, ainda mora com os pais e trabalha numa cafeteria. Mas essa vida comum — tão comum que beira a invisibilidade — é apenas a fachada de uma performer.
É aqui que a assinatura de Fennell começa a aparecer: ela pega uma estética doce, neon, de tons pastéis, e a utiliza como uma luva para esconder a podridão social que Cassie está prestes a dissecar. A cafeteria, o figurino vibrante, a trilha sonora pop… tudo é um invólucro esteticamente impecável para o luto. E é nessa dicotomia entre a “jovem promissora” que ela deveria ter sido e a “justiceira” que ela se tornou, que a diretora nos engana. A gente acha que está vendo uma história de vingança, quando, na verdade, estamos assistindo ao ritual de despedida de uma mulher que já morreu por dentro.
Mais que isso, o filme expõe a engrenagem que permite que a violência contra a mulher se converta em feminicídio. A lógica é insidiosa: hoje o agressor pratica violência sexual, moral ou psicológica; amanhã, ele pode, tranquilamente, cometer o crime final. Tudo isso sob a proteção de um sistema que só pune o agressor quando não há mais nada a ser feito pela vítima. A condescendência é o fio condutor que pavimenta o caminho para a tragédia.
E é por isso que Emerald Fennell mata a Cassie — e em Saltburn notamos o mesmo movimento. Fennell constrói mundos tão sedutores e convidativos que nós, espectadores, queremos acreditar na beleza deles. Mas, ao eliminar a Carey Mulligan, que tem um perfil vulnerável, feroz e profundamente humano, ela nos força a encarar a verdade que tentamos ignorar: a humanidade não sobrevive nesses cenários.
A morte de Cassie não é uma derrota, é um ato político. Ela sacrifica a própria vida para tornar o sistema ‘visível’ para os outros, expondo a podridão que o neon tentava disfarçar. Fennell mata a nossa protagonista porque ela não consegue imaginar um final feliz para uma mulher que ousa se tornar um problema para o patriarcado. No cinema de Fennell, a beleza é quase sempre o túmulo de alguém; e a Carey Mulligan, com sua vulnerabilidade feroz, acaba sendo o avatar perfeito para nos mostrar que, em mundos onde a moralidade é descartável, as pessoas como ela não têm lugar.
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