Por que o novo longa de Lanthimos é a crítica de classe que você não viu chegando (mesmo olhando bem na sua frente).
jul 16, 2026

No começo, assisti a Bugonia sem dar muita atenção. Sabe? Àquela coisa de ver as coisas de vista periférica, enquanto se tenta dar conta do mundo e de mais um pouco. E é aí que o filme te pega. Pois, olhando de soslaio, ele facilmente pode parecer apenas uma história sobre um sujeito conspiracionista e ensandecido.
Eu poderia dizer, tranquilamente, que Bugonia me bugou. No começo, achei estar diante de uma crítica contemporânea da era da pós-verdade (e eu não estava tão errada assim), mas a reviravolta do filme é tamanha, que a gente termina se perguntando: “eu entendi direito?”.
O tempo todo, o filme nos convence de que estamos diante de um desses conspiracionistas doidos, do tipo que acredita que a Terra é plana. Um cara esquisito, aparentemente cheio de traumas… interpretado por ninguém menos que Jesse Plemons, que consegue dar um ar psicótico ao personagem. A questão é se esse ar psicótico é, de fato, uma patologia, ou se ele tem origem em preconceitos e crenças arraigadas que nos levam a julgá-lo por aquilo que parece óbvio. Pois, no decorrer da narrativa, vamos nos surpreendendo com falas do protagonista que soam coerentes. Mas é no plot twist — que é simplesmente genial — que todas as nossas convicções caem por terra. É aí que o filme revela sua verdadeira face: uma crítica dura e visceral sobre a perspectiva de classe, que só salta aos olhos quando o véu da loucura é removido.
Para quem conhece a obra de Yorgos Lanthimos, o “estranho” é uma marca registrada. Mas esse estranhamento não é gratuito; ele bebe da fonte da Greek Weird Wave, aquele movimento insurgente que emergiu na Grécia a partir de 2008 — um reflexo direto da asfixia política e social que o país atravessava. É uma vanguarda que usa o absurdo para desenhar a realidade.
O thriller, que flerta com a comédia de terror, me gerou um desconforto imediato com as cenas de tortura. E aqui, abro um parêntese que é menos técnico e mais moral: tenho ojeriza a cenas de tortura. Elas me afetam na mesma medida em que me preocupam, justamente pelo poder que a imagem tem de moldar o real. Não subestimo o valor artístico, mas acredito que o cinema tem o poder perigoso de naturalizar comportamentos, para o bem ou para o mal.
Eu, que passei a apreciar o trabalho de Ryan Murphy a partir de American Horror Story, me vi profundamente perturbada ao assistir Ratched. A estética é impecável e a atuação de Sarah Paulson, poderosa; ao mesmo tempo, é, literalmente, um pornô para psicopatas. As cenas são intragáveis (ainda que, tecnicamente, eu adorasse ser capaz de executar uma arte nesse nível de acabamento). O excesso de violência extrema, onde a tortura é fetichizada, atinge o meu limite: é um incômodo que supera a fruição.
Enfim, convicções filosóficas e morais postas, voltemos à Bugonia. O filme utiliza esse mesmo desconforto como um gatilho. O longa brinca com a nossa percepção de realidade para, em seguida, esfregar na nossa cara que estávamos errados sobre quem era o vilão e quem era a vítima.
O filme entrega estética de alto nível, com uma trilha musical repleta de sinfonias clássicas que, na sua frieza calculada, remetem diretamente ao estilo de Kubrick. É um cinema de composição clínica, onde o enquadramento simétrico e o distanciamento da câmera transformam os personagens em espécimes de laboratório.
No fim, Bugonia não é sobre alienígenas e conspirações. É sobre a verdade que a classe dominante tenta esconder — e a loucura é apenas o rótulo que eles dão para quem ousa olhar para o céu e ver a nave. O filme me bugou, sim. Mas foi o tipo de “bug” necessário para reinstalar o meu sistema crítico.
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