YASMIN PEDROSA

O que você faz quando sua intuição soa o alerta para coisas ou pessoas que você não quer perder?

YASMIN PEDROSA

jul 18, 2026

Retrato de uma mulher com cabelos cacheados e rosto machucado, apresentando um olho roxo e um hematoma na bochecha. Ela usa batom vermelho e brincos.
Crédito da imagem: Nan Goldin – fotógrafa norte-americana.

Essa pergunta dolorosa tem me rondado nos últimos meses. Após um evento traumático, minha hipervigilância tornou-se insuportável. É assim que o TEPT — Transtorno de Estresse Pós-Traumático — opera na prática: trata-se de uma resposta fisiológica a eventos que impõem lesões psíquicas reais. Qualquer gatilho mínimo é o suficiente para que o corpo entre em estado de alerta de guerra.

É aí que reside uma das encruzilhadas mais cruéis: onde termina o eco do passado e onde começa a leitura real do presente?

Às vezes, uma conversa velada por indiretas ou um olhar desviado são suficientes para sentir a energia do que paira no ar. Mesmo que nada se apresente de forma desnuda, o meu corpo já sabe que algo está fora do lugar antes mesmo de a minha mente formular a frase.

Sei que, clinicamente, o TEPT é caracterizado pela revivência do trauma, pela esquiva e por alterações de humor. Entender a definição é apenas metade do caminho; o desafio real é conviver com essa sentinela que habita o meu sistema nervoso. Ela se manifesta de formas concretas no cotidiano: no medo de sair de casa, na sensibilidade excessiva a qualquer susto e na dificuldade profunda em confiar. É uma proteção que, paradoxalmente, me coloca em xeque diante de quem eu, simplesmente, não queria perder.

Foi a partir dessa sentinela que comecei a olhar para as relações ao meu redor sob uma nova lente. Percebi que a misoginia impõe uma vivência cruel — e, embora a análise dessa realidade comporte inúmeros recortes, é possível afirmar com segurança que, para as mulheres, os desafios giram, invariavelmente, em torno dos mesmos estereótipos de gênero e da misoginia estrutural.

É aí que a questão se aprofunda. O que vivi envolveu violações que feriram profundamente a minha honra e moral. A violência doméstica nunca é um ato isolado; sua prática, quase sempre, engloba múltiplas formas de violência previstas em lei. Nesse cenário, a estrutura social frequentemente se desdobra em favor do agressor, o que não só fragiliza a vítima, como a expõe ao julgamento coletivo em uma dinâmica profundamente desequilibrada. É doloroso constatar que pessoas, por vezes instruídas, falham em identificar — ou escolhem ignorar — a violência moral, permitindo que o ciclo se perpetue.

A violência moral é uma forma perniciosa de agressão justamente por não deixar marcas físicas. Ela se manifesta por meio de humilhação, ridicularização, difamação, injúria ou da disseminação de informações falsas com o objetivo de degradar, controlar e desvalorizar a vítima. Eu vivi tudo isso, e muito mais. O efeito colateral de ter enfrentado essas violações, e de ter tido a coragem de denunciá-las, é que o meu sistema de confiança foi, inevitavelmente, abalado. As indiretas veladas e as atitudes que questionam o meu caráter tornaram-se ecos constantes do que sofri.

E é nesse cenário, entre a necessidade profunda de conexões humanas e o medo do que pode estar oculto, que as minhas sinapses se colocam em alerta máximo: àquela fala, era realmente uma indireta? Eu ainda posso confiar nesta pessoa?

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