YASMIN PEDROSA

Erguer Monumentos sobre os Escombros

A estética brutalista e a crueza do íntimo no cinema contemporâneo.

YASMIN PEDROSA

jul 23, 2026

Homem com expressão séria segurando um cigarro, cercado por faíscas brilhantes contra um céu azul.

O Brutalista é daqueles filmes que entregam muito mais do que narrativa: oferecem um espetáculo visual em que a arquitetura, somada a enquadramentos, cenários e figurinos sofisticados, alinha-se perfeitamente ao desenvolvimento dramático. Apesar de tratar-se de um drama brutal, a obra ainda assim entrega beleza — o que, no fim, traduz com precisão a complexidade de László Tóth (Adrien Brody).

Dirigido por Brady Corbet e ambientado em 1947, o longa retrata a trajetória do arquiteto húngaro László e de sua esposa, Erzsébet (Felicity Jones). O casal, em busca de um recomeço após a devastação da Segunda Guerra Mundial, embarca em uma jornada rumo aos Estados Unidos, sonhando com um futuro seguro.

Em primeiro lugar, vale destacar o peso dos títulos associados à A24 — que assumiu a distribuição do longa. A marca costuma entregar um padrão estético e narrativo de altíssimo nível; não se trata de uma unidade temática estrita, mas de um selo de produção que eleva qualquer projeto de patamar.

Outro ponto fascinante é inserir a estética brutalista no centro da cultura pop, um movimento que raramente ganha espaço fora dos círculos especializados de arquitetura e urbanismo. Ao trazê-la para o eixo de uma grande narrativa cinematográfica, o filme expõe o que o brutalismo tem de mais visceral: o concreto aparente, a honestidade estrutural, a recusa aos ornamentos e o peso monumental — características consolidadas no período pós-Segunda Guerra Mundial através de formas geométricas marcantes e de uma estética austera.

Na trajetória de László, o brutalismo deixa de ser apenas uma escolha de época e passa a atuar como uma extensão física da psique. O peso dos blocos de cimento, a grandiosidade opressiva e a rigidez das formas espelham exatamente a luta de erguer algo monumental a partir dos escombros da própria história. É a arquitetura operando como trauma e manifesto ao mesmo tempo — e ver essa densidade espacial ganhar tração cultural redefine o alcance estético do que o cinema contemporâneo é capaz de erguer.

Em termos de carpintaria de roteiro, um dos grandes acertos da obra é a escolha narrativa: em vez de incorrer na redundância de explicar a imagem visual, o roteiro apoia-se nas cartas escritas por Erzsébet. Nelas, ela relata as marcas deixadas pelo conflito e a ânsia pelo reencontro, alimentando a crença de que estariam a salvo das agruras da guerra.

No entanto, o antissemitismo impõe traumas profundos à família, forçando-nos a questionar se realmente existe um lugar seguro quando o ódio e a discriminação atravessam todas as fronteiras. O filme aposta na crueza do íntimo e em uma humanização radical.

Para coroar essa voltagem, o longa garantiu três estatuetas no Oscar de 2025 (Melhor Ator, Fotografia e Trilha Sonora Original), embora também tenha gerado burburinhos negativos ao utilizar inteligência artificial para efetuar ajustes nos diálogos em língua estrangeira — um detalhe que adiciona uma camada moderna e espinhosa à recepção da obra.

No fim, O Brutalista nos lembra que erguer monumentos sobre os escombros não é um ato de apagamento, mas de enfrentamento. É a prova de que, mesmo quando a história tenta soterrar a humanidade sob toneladas de concreto e opressão, a arte — em sua brutalidade e beleza — permanece como a única estrutura firme o bastante para sustentar o peso de quem fomos e de quem resistimos para continuar sendo.

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