YASMIN PEDROSA

I.A. e a caça às bruxas do século XXI

Uma análise de como empresas de I.A. querem roubar não apenas cognição, mas autoria, para vender ferramentas de I.A. indetectáveis e humanizadas.

YASMIN PEDROSA

jul 26, 2026


Ilustração de uma cena histórica com uma mulher sendo queimada em uma fogueira, cercada por espectadores, com bandeiras e casas ao fundo.

Hoje eu vou falar de I.A. porque eu fiquei full pistola ao descobrir que até textos falando de um trauma pessoal caíram na malha fina da I.A., em que uma vivência íntima, pessoal e intransferível se transformou em um texto “100%” gerado por I.A. por conta de algum rigor textual e uma revisão corriqueira feita no Gemini.

E essa é uma questão que me pega muito, porque desde a época da faculdade, quando estávamos longe de ter uma I.A. à disposição, eu tinha minha capacidade intelectual questionada, mesmo quando muitas vezes eu me mostrava relativamente à frente da maioria, claro, sempre lendo muito, então não seria para menos. E isso sempre vindo de algum homem hétero misógino, nunca de outro tipo de gente.

Fiz o alerta na plataforma em que publico, porque o feedback foi mais que absurdo, visto que meus textos são carregados de subjetividade e vivência pessoal. Para não cair na malha fina, diminuí o padrão textual, seguindo com a correção gramatical pelo Gemini (que nem é a melhor plataforma para isso, gerando demanda para um duplo review); resultado: o texto constou como algo produzido por humanos. Veja, eu tive que ser menos inteligente e aguçada na minha crítica para a ferramenta detectora de I.A. não detectar uma mera correção gramatical feita por I.A.

Texto de artigo sobre revisão de textos por humanos e I.A., com uma imagem ao lado relacionada ao tema.

Na minha carreira de redatora, eu já fui paga para revisar trabalho acadêmico assim como para escrever TCC do absoluto zero. E eu já revisei texto de muita gente, simplesmente porque, do ponto de vista técnico, o ideal é escrever e ter um revisor ou escrever e esperar pelo menos umas 24 horas para revisar o texto, visto que a nossa visão cansa, perdendo de vista erros que na linguagem coloquial ganham naturalidade.

Tem gente que vai bancar dizer que pum e pá e escreve e corrige em menos de 24 horas, e eu até acredito; o mercado da comunicação torce o profissional até ele perder qualquer referência de metodologia, porque tudo acaba se resumindo a algo inócuo como o tempo de entrega.

A questão é que, nos últimos dias, uma caça às bruxas parece ter se intensificado de tal maneira que o trabalho humano foi completamente obliterado por empresas duvidosas, de algoritmos rasos, que, mais que roubar nossa cognição, também querem nossa autoria e construção de pensamento subjetivo. DESDE QUANDO I.A. TEM PONTO DE VISTA, GENTE?

O repertório da I.A. é que é 100% humano. Lembro que, quando comecei a trabalhar fazendo resenhas de livros, me empolguei com o surgimento de uma dessas ferramentas. Achando que me pouparia trabalho, fui lá e gerei textos automáticos de obras clássicas (porque às vezes a gente nem quer malhar nossa cognição, só receber nosso ordenado); o resultado não poderia ser mais desastroso: entre redundâncias e uma ótica superficial, o diagnóstico era simples: uma bosta.

Então, meio que não existe texto automático convincente, com tese forte, ponto de vista e etc. Essa bagagem é única e exclusiva de qualquer ser humano com repertório e olhar autoral.

Para julgar essa questão, é preciso ter o filtro de quem está na trincheira fazendo a coisa acontecer e de fato conhece e trabalha com I.A.; só a gente para identificar que essa caça às bruxas não é aleatória e sim um marketing muito bem estruturado para vender tecnologias de I.A. que se prometem humanizadas porque simplificam e tornam a linguagem mais coloquial.

E aí eu preciso meter a minha banca de sempre: corrijo por I.A., seguirei corrigindo, com ideias que só uma cabeça com muito repertório como a minha poderia gerar, porque minha musculatura cerebral é bem nutrida com no mínimo 50 livros por ano, além de uma infinidade de filmes, séries e documentários (inclusive, logo, logo, tudo isso vira conteúdo).

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