Uma análise sobre deixar ser quem se é.
jul 28, 2026

Nunca fui a maior fã de Mestres do Universo, mas na década de 1990 ainda passava na TV, e eu assisti ao desenho um sem-número de vezes durante as manhãs, na infância. Inclusive, sinto nostalgia da época em que a televisão aberta ainda dedicava tempo à programação infantil. Hoje, na era da “inclusão”, os conteúdos infantis das emissoras brasileiras abertas foram quase completamente extintos.
A Rede Globo, por exemplo, empresa que integra o maior conglomerado midiático do país, dedica menos de 1% de sua programação ao público infantil, e a justificativa para isso é mais que inquestionável: as novas restrições do CONANDA para publicidade infantil, o que, paradoxalmente, acabou por asfixiar o espaço de convivência coletiva e o imaginário comum que a televisão aberta proporciona.
Seja como for, voltemos ao Masters of the Universe (2026), onde a premissa de He-Man traz camadas psicológicas e metafóricas ricas, além de um senso de humor contagiante.
O live-action discute assuntos contemporâneos como estereótipos de gênero, psicofobia e identidade.
E não seria para menos, o desenho possui lugar cativo entre a comunidade LGBTQIAP+, isso porque a própria dinâmica de Adam não performar o masculino ideal até a necessidade de assumir uma identidade antagônica à sua própria realidade pessoal dialoga profundamente com vivências tidas como “marginais”. A estética Camp e a subversão dos binarismos tradicionais sempre fizeram parte do núcleo dessa mitologia, o que, inclusive, transformou o He-Man em um ícone.
E aqui abro um parêntese para explicar a estética Camp, que é ligada ao exagero, ao antinatural e ao extremado. Tal estética, que também carrega cores vibrantes, possui o efeito semiótico de estimular a sensibilidade à diferença.
No início, quando Adam (Nicholas Galitzine) é interpretado como um “cara doido”, ele sofre exclusões por não se adaptar à narrativa comum própria à vivência terrestre. Enquanto as pessoas se preocupam em progredir e pagar o aluguel, Adam segue em busca, obstinadamente, de sua espada e o consequente retorno ao seu planeta de origem.
No momento em que Adam reencontra a espada e confronta essa “normalidade”, ele não está apenas recuperando sua força mágica, mas sobrepondo sua verdade, em definitivo, frente à tentativa de ser diminuído por caixas estreitas de uma sociedade que confunde conformismo com sanidade.
Algo que também me marcou muito neste live-action foi a naturalização da não violência. Vemos várias cenas em situações que poderiam descambar para esse rumo, mas os personagens optam por uma atitude pacífica. O próprio príncipe Adam traz esse questionamento em vários momentos do filme em que tenta conduzir situações limite com o diálogo como meio de resolução de conflitos, embora saiba que, em alguns momentos, o conflito é inevitável.
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