YASMIN PEDROSA

Fallout: o fim do mundo é agora!

Uma análise sobre violência e estética imersiva.

YASMIN PEDROSA

ago 01, 2026


Imagem promocional do jogo Fallout, mostrando uma personagem com um traje azul e o número 33, segurando uma arma, em um ambiente pós-apocalíptico.

Dia desses, me peguei em uma discussão acalorada com o meu pai. Ele, que detesta terror, argumentava que não via nada nesses conteúdos além de violência. No dia, eu havia sugerido que ele desse uma oportunidade para assistir Fallout.

Fallout é, sem sombra de dúvida, uma das minhas séries favoritas, e isso que eu nem sou da fanbase do jogo e fui conhecer a história lá em meados de 2024, quando a série foi lançada na Prime.

Ela condensa o universo de Fallout, jogo de RPG de mesmo nome da Bethesda queem suas diversas ramificações e em seus quase 30 anos de existência, se passa em uma distopia pós-apocalíptica e engloba conflitos tribais, de sobrevivência e a missão maior, que seria reabilitar a humanidade no planeta Terra. Só que tem um detalhe: por trás dessa dinâmica reside uma grande corporação, que ganha tanto poder que, simplesmente, determina o destino da humanidade.

Ilustração de um personagem sorridente jogando dados, com um fundo escuro e uma estética retrô.

O grande trunfo da série, a meu ver, foi escolher o ponto de vista da personagem Lucy (Ella Purnell), uma protagonista moralmente íntegra, ingênua e educada, um perfil que contrasta brutalmente com o contexto da superfície. Principalmente quando o caminho de Lucy cruza com o do Ghoul (Walton Goggins), esse contraste fica ainda mais evidente — fato que, já de início, estabelece uma reflexão de classe, porque Lucy só é da forma como é porque não foi exposta aos riscos e às intempéries da superfície. Trata-se de um local a cuja realidade hostil ela luta para se adaptar na primeira temporada, e cuja brutalidade dá o tom do arco da personagem, sobre a qual apostam se permanecerá a mesma.

Como a série não segue o estilo linear, a história se desenvolve com passado e presente em paralelo, o que, no final, acaba revelando o propósito da temporada. Portanto, o Ghoul do presente era, no passado, o ator bem-sucedido Cooper Howard que, por ironia do destino, acaba tendo uma relação decisiva com o fim do mundo. Mais de duzentos anos mais tarde, o ator humanista e pai amoroso já não existem mais; Cooper Howard agora é o Ghoul, um necrótico que aprendeu a sobreviver na superfície, nem que para isso ele tenha que abafar em si qualquer lastro de humanidade.

Outro grande acerto de Fallout é que a série priorizou efeitos práticos, cenários táteis e interações reais, o que é fundamental em narrativas distópicas, que perdem muito em verossimilhança dependendo das escolhas de produção, principalmente aquelas que se ancoram exclusivamente em CGI.

No caso de Fallout, vemos cenários realistas, em que cada mínimo detalhe foi pensado para garantir ao espectador uma experiência imersiva, o que gera todo um fascínio pelo universo da série.

Para se ter uma ideia do trabalho fino do design de produção, algumas das tomadas da série foram captadas em Elizabeth Bay, na Namíbia: uma mina de diamantes construída no século XX na Costa do Esqueleto, abandonada e bombardeada em 1930. O local é totalmente devastado e tem cara de pós-apocalipse, o que, em Fallout, serviu para materializar uma Los Angeles de mais de dois séculos após o colapso nuclear orquestrado pela Vault-Tec.

Algo que também me ganhou para o universo de Fallout foi a estética retrofuturista — com muitos elementos dos anos 1950 (o que chamam de cassette futurism) e uma pegada de neo-western simplesmente maravilhosa —, tudo isso muito bem conduzido pela trilha musical, que muitas vezes é responsável por uma colisão estética que extrapola a mera ironia: músicas alegres, românticas e otimistas dos anos 1950 tocando exatamente no momento em que membros são amputados ou cabeças explodem. Esse choque sensorial é a assinatura principal da obra.

A recusa tácita pela polidez, visível no realismo brutal do design e na crueza da violência gráfica, confere substância e profundidade ao universo da narrativa.

O que me faz retornar ao meu pai e à sua máxima pessoal de que o terror é apenas violência. Fallout usa o gênero para metaforizar temas contemporâneos como capitalismo tardio, meritocracia e engenharia social. Ou seja, muito longe do mero fetiche, a violência surge em obras como Fallout com uma função catártica, permitindo que quem assiste experimente não só emoções intensas, mas também reflexões profundas acerca de dinâmicas de poder, lutas contra a opressão e situações-limite de sobrevivência.

No fim, o único capital importante que restou no mundo pós-apocalíptico de Fallout, além de tampas e energia, são as pessoas moralmente íntegras, resistentes ao meio e capazes de fazer a coisa certa… Isso sem acreditar em contos de fadas, porque, como a própria série mostra, às vezes, ser a pessoa boa significa a própria ruína.

Deixe um comentário