No luar, garotos negros ficam azuis…
ago 03, 2026

No meu ranking fílmico pessoal, Moonlight: sob a luz do luar figura não apenas pela força narrativa como um dos melhores filmes, mas também como um dos mais bonitos que já assisti. A cinematografia é uma obra de arte completa, com direito a uma paleta de cores deslumbrante e referências que vão de René Magritte à fotografia de Cidade de Deus, filme brasileiro dirigido por Fernando Meirelles e Kátia Lund. Do diretor Barry Jenkins, Moonlight é baseado na peça inédita In Moonlight Black Boys Look Blue, escrita por Tarell Alvin McCraney.
O longa acompanha a trajetória de Chiron em três momentos distintos de sua vida, retratando dilemas relativos à sexualidade, à identidade e aos desafios vividos por um jovem negro em uma comunidade pobre de Miami — tudo isso de maneira muito humanizada e distante de clichês estereotipados em relação à sexualidade e à identidade do protagonista.
Uma curiosidade é que Chiron é interpretado por atores muito diferentes entre si, atores que não se encontraram em momento algum durante as filmagens, mas que entregam uma atuação tão forte e visceral que, quando assistimos ao longa, nos convencemos de estar diante da mesma pessoa.

Moonlight: sob a luz do Luar / O vestido da noite – René Magritte
No entanto, há um incômodo profundo no tratamento dado à mãe do personagem: embora a interpretação de Naomie Harris seja visceral e de altíssimo nível, ela acaba confinada ao arquétipo da viciada — o que, para mim, constitui uma violência por si só. No fim das contas, a questão central não é o consumo em si, já que o vício atravessa aquela comunidade de ponta a ponta (inclusive na figura de Juan); o que muda é apenas a forma como cada um se relaciona com essa dependência em meio às demais camadas da vida.
É verdade que a obra carrega um forte viés de autoralidade. Ainda assim, questiono-me o quanto a misoginia estrutural é capaz de moldar o olhar — inclusive o dos próprios filhos — em relação à figura materna e às suas humanidades complexas.
Lembro-me de quando conheci Dear Mama, música em que Tupac tematiza a maternidade solo, mas que também incorre, em alguma medida, nesse mesmo lugar de reducionismo estereotipado. Afeni Shakur foi uma mulher negra, uma intelectual que atuou na linha de frente dos Panteras Negras contra a violência de Estado — uma trajetória que, inevitavelmente, deixou sequelas severas. Sabendo que o vício muitas vezes se entrelaça de forma íntima com o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), pergunto-me se não está mais do que na hora de exercermos uma leitura mais justa, contextualizada e profunda sobre essas mulheres.
Ainda assim, a cena dessa mãe se redimindo diante do filho agora adulto, que, apesar de tudo, ainda vai visitá-la, é de uma delicadeza emocionante. Por entre as fraturas e a complexidade daquelas duas figuras, o que permanece é o amor.
Mas Moonlight é muito mais do que essa relação entre mãe e filho. Na realidade, o conflito central do enredo é sobre o próprio Chiron e os dramas que o acompanham ao longo de sua maturação.
Uma outra cena que me pega muito pela delicadeza e sensibilidade — e isso sem apelar a estereótipos toscos — é quando Chiron, já com 25 anos, revela ao seu afeto que ele foi o único homem que o tocou. É lindo, é sensível e mostra o cerne do conflito: um garoto negro no gueto de Miami lidando com uma sexualidade que parece muito aquém do seu universo. Mas ela está ali, e Chiron conhece a própria identidade; no entanto, é como um segredo muito bem escondido, do qual ele não se furta o prazer de explorar mais. Afinal, Chiron agora é um gangster que precisa ser firme em sua performance de masculinidade.
Em certa altura do filme, e para olhos atentos, compreendemos a relação intrínseca da paleta de cores com a história — uma revelação que desponta por meio de um diálogo onde, dentre outras coisas, Juan diz: “No luar, garotos negros ficam azuis…”. A escolha cromática em Moonlight não é acidental; ela dialoga diretamente com a psicologia das cores, fazendo com que um tom específico predomine em cada fase da vida de Chiron.
Moonlight foi o primeiro filme com um elenco composto totalmente por atores e atrizes negros a levar a estatueta de Melhor Filme na edição de 2017 do Oscar, além de também vencer nas categorias de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Ator Coadjuvante, pela interpretação de Mahershala Ali como o traficante Juan.
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