A arquitetura vertical e a luta de classes.
ago 10, 2026

Acho que todo mundo já percebeu que essa não é uma página de “crítica” cinematográfica; eu geralmente analiso filmes que gosto e que me atravessam de alguma forma, tentando traduzir as metáforas que essas grandes obras suscitam em mim.
E Parasita (2019), filme do diretor sul-coreano Bong Joon-ho, é daqueles que geram reflexões profundas sobre dinâmicas sociais e desigualdades, embora o diretor tenha frisado não se tratar de um filme político. Ainda assim, o maior mérito do longa não reside nas reviravoltas surpreendentes nem no humor ácido da narrativa, mas na forma como ele traduz a desigualdade social através da geografia do espaço físico.
No início, quando somos apresentados ao mundo comum da família protagonista, somos inseridos em um contexto claustrofóbico de um banjiha — um apartamento semi-subterrâneo —, o que traz à tona a sensação sufocante de uma família vivendo no rodapé da sociedade, literalmente.
Abarrotado e decadente, o ambiente conta uma história e, de cara, já mostra que aquela leitura não será simples nem reducionista, pois coloca em xeque qualquer julgamento superficial que possamos fazer, visto que não se trata de uma família sem instrução ou de pessoas acomodadas; pelo contrário, a mãe, Choong-sook (Jang Hye-jin), aparentemente é uma atleta e campeã olímpica, enquanto os filhos, Ki-woo (Choi Woo-shik) e Ki-jung (Park So-dam), e o Sr. Kim (Song Kang-ho) apresentam habilidades sofisticadas, o que abre espaço para um questionamento importante acerca da lógica meritocrática e credencialista.
Por outro lado, temos a residência da família Park, um personagem à parte na trama. Com sua estética minimalista, a mansão é cercada por um jardim idílico e está localizada no topo da cidade, ostentando uma arquitetura projetada por um profissional de renome.
Toda essa metáfora da verticalidade fica evidente na sequência da tempestade torrencial. Enquanto a chuva forte é vista por Yeon-kyo (Cho Yeo-jeong) como uma bênção e uma forma de purificar o ar, renovando a paisagem de seu jardim pessoal, para a família do Sr. Kim, no entanto, a mesma tempestade ganha contornos dramáticos, funcionando como uma segunda tragédia no mesmo dia — o que, no fim das contas, os obriga a passar a noite em um abrigo. É nesse momento, inclusive, que temos um diálogo que funciona como um choque de realidade: Ki-woo se questiona como o amigo burguês e universitário agiria naquela situação, e Ki-jung, no ápice de sua revolta, responde ao irmão que aquele amigo jamais estaria ali, pontuando mais uma vez a força das circunstâncias em oposição à lógica da superioridade meritocrática. É aqui também que o Sr. Kim reflete sobre o fato de que nem eles nem as outras famílias no abrigo planejaram enfrentar enchentes; mesmo assim, lá estavam todos eles.
Outro ponto que saltou aos meus olhos foi a ingenuidade de Yeon-kyo, algo que atribuímos justamente à sua classe social. É a lógica do “poder” ser alguém leve, ingênuo e que confia nas pessoas, um privilégio inalcançável para quem vive exposto às intempéries da sobrevivência.
O filme não se restringe a expor as engrenagens das desigualdades sociais, mas também as de gênero, o que é representado pela filha mais velha dos Park, Da-hye (Jung Ji-so), que parece invisibilizada dentro da família e, às vezes, posta em uma condição de inferioridade. Toda a atenção parece voltada a Da-song (Jung Hyun-jun) e suas vontades e necessidades, enquanto Yeon-kyo sequer considera oferecer um macarrão para a própria filha.
No fim, não são as escolhas dos indivíduos que determinam sua classe social, mas são suas escolhas que determinam a catástrofe final, cujo desencadeamento perpassa por uma lógica que não apenas coloca os indivíduos das classes emergentes em situação de antagonismo pessoal, mas que também garante que, sob a posse de qualquer poder mínimo que seja, as pessoas tendem a tentar esmagar como insetos quem está por baixo.
O grande soco no estômago que Bong Joon-ho nos dá é mostrar que a arquitetura desse mundo foi construída para que as classes nunca se cruzem de verdade — a não ser quando os de baixo servem ao andar de cima.
Parasita também foi o grande vencedor na categoria melhor filme da edição de 2020 do Oscar, fazendo história ao ser o primeiro filme estrangeiro a ser premiado nesta categoria. O longa também venceu nas categorias: melhor direção, melhor roteiro original e melhor filme estrangeiro.
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