YASMIN PEDROSA

CORRA!

Do suspense psicológico à crítica social. [CONTÉM SPOILER]

YASMIN PEDROSA

ago 13, 2026


Homem em um sofá, gritando com expressões de medo e desespero, com o texto 'CORRA!' em letras grandes.

Dia desses resolvi rever Corra!, filme escrito e dirigido por Jordan Peele, e, tirando toda a crítica racial, acabei me identificando com a trama por um relacionamento que tive. Assim como no longa, muitos pequenos indícios (que foram escalando com o tempo) gritavam para mim: Corra! E eu não corri a tempo.

É claro que a analogia não chega aos níveis extremos da ficção, mas, com certeza, existem semelhanças, o que me pôs a refletir sobre como mesmo narrativas repletas de crítica social podem se universalizar com questões que são meramente humanas. No caso, alguém que engana e ludibria a troco de um benefício sórdido.

E aqui não pretendo esvaziar um debate denso, mas observar como no filme existe uma dinâmica de manipulação sutil que forja a confiança entre o casal e uma falsa normalidade até que o cerco se fecha por completo — como quando o protagonista é preso no lugar submerso do filme.

No longa, Chris (Daniel Kaluuya) é um homem apaixonado que acredita na lealdade da companheira. Embora tema o encontro com a família branca da namorada, ele decide seguir em frente com o relacionamento. No decorrer da visita, surgem diversas red flags, que são tratadas por Chris como mais do mesmo racismo de sempre. O que de pior pode acontecer? Pois é: o principal alerta do filme consiste justamente em não pagar para ver.

Corra! é daqueles filmes que chegam sem pedir licença e não têm medo de ser indigestos. O debate racial tecido pelo longa é de altíssimo nível, dialogando diretamente com temores reais oriundos de uma estrutura objetivamente racista.

A trilha sonora é um elemento que merece absoluto destaque. Mais do que um desenho sonoro muito bem articulado e fundamental para a construção do suspense, a trilha musical conflui com a narrativa de maneira tão eficaz que cria uma atmosfera completamente orgânica com o universo fílmico.

Um detalhe do roteiro que não parece estar ali por acaso é a menção a Jeffrey Dahmer — o famoso serial killer que cometeu a maioria de seus crimes em Milwaukee entre as décadas de 1970 e 1990. Sua atuação se prolongou não por astúcia, mas pelo viés racista e preconceituoso das autoridades.

Por um lado, o Estado ignorava o desaparecimento de garotos marginalizados, gays e racializados; por outro, o perfil de Dahmer o blindava de suspeitas, escancarando a hipocrisia de um sistema policial que, enquanto protegia criminosos brancos, era implacável e letal com jovens negros, muitas vezes sob o pretexto de suspeitas infundadas.

Um debate, aliás, esmiuçado com profundidade cirúrgica pelo documentário A 13ª Emenda, de Ava DuVernay.

Voltando a Corra!, o longa entrega um dos plot twists mais marcantes e bem construídos do cinema contemporâneo, tornando-se um divisor de águas ao redefinir o gênero e inspirar outras obras de terror social.

O desfecho do thriller é sensacional não só pelo desenvolvimento narrativo, mas porque ele foge dessa lógica em que a pessoa alvo do preconceito inevitavelmente morre ou se dá mal — um tipo de representatividade que considero problemática por fetichizar as agruras de quem é alvo de discriminação.

Filme de estreia de Jordan Peele, venceu na categoria Melhor Roteiro Original no Oscar 2018 e, posteriormente, foi listado como o melhor roteiro do século XXI pelo Writers Guild of America.

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