YASMIN PEDROSA

Saltburn: o vermelho como narrativa

YASMIN PEDROSA

ago 29, 2026


Depois de um hiato de quase quinze dias sem escrever, resolvi retomar o “texto que ficou parado” e que, por uns dias, foi quase como um fantasma me lembrando incessantemente de uma responsabilidade autoimposta: a de escrever sobre Saltburn.

Rascunhei análises partindo de lugares diversos, até que, nesse vai e volta, o vermelho me chamou a atenção.

Uma das coisas de que mais gosto na direção de Emerald Fennell é que a estilização dos universos retratados nunca é uma escolha meramente estética, mas sim uma direção baseada em pura dramaturgia.

Em Saltburn, temos um romance gótico moderno — algo demarcado pela arquitetura, pelo enredo, pela atmosfera de mistério meio claustrofóbica e pelas escolhas estéticas da obra —, em que o vermelho se destaca em pontos de virada da trama, trazendo à cena o teor de cobiça, inveja, traição e luxúria que permeia a história.

Com uma paleta que satura o ambiente visual, o vermelho representa a materialização cromática desses aspectos centrais, conduzindo, muitas vezes, a momentos que parecem diabólicos, ao mesmo tempo em que constrói a atmosfera aristocrática e exagerada, que flerta com o kitsch, e ambienta as manipulações de Oliver.

Essa leitura se sustenta em algumas cenas elementares para o desenvolvimento da história, nas quais o vermelho atua como engrenagem narrativa e psicológica. Encontramos exemplos disso em vários momentos-chave: o primeiro ocorre quando a manipulação tem início e Felix (Jacob Elordi) acolhe Oliver (Barry Keoghan) após o suposto falecimento de seu pai; o segundo, quando Oliver trai a amizade de Felix ao se relacionar com sua irmã, Venetia (Alison Oliver); o terceiro, quando Felix morre e as cortinas são fechadas, deixando toda a família reunida na mesa de jantar sob uma luz vermelha enquanto a taça de Venetia transborda vinho; por fim, temos a morte de Venetia, encontrada mergulhada em seu próprio sangue.

A relação de Farleigh (Archie Madekwe) e Oliver — sendo o primeiro o único a não se deixar manipular pelo segundo — também merece destaque. Por meio da paleta de cores, temos ilustrado o jogo de tensão entre os dois, o que culmina em um momento de constrangimento público durante um karaokê, em que o fogo crepitando na lareira constrói uma atmosfera diabólica frente a mais um golpe de Farleigh contra Oliver e seu plano maquiavélico.

Não é como se o vermelho fosse o elemento mais importante da paleta, cuja diversidade tem a função de exercer um contraste entre cenas mais frias e cenas mais quentes em um ambiente que mistura elementos do passado e do presente, em que transita uma aristocracia moderna e exagerada que esbanja e ostenta de maneira tão segura em seu universo, mostrando-se incapaz de se precaver contra as investidas de Oliver. Mas o vermelho é como se fossem as vísceras do longa, sendo sugadas de canudinho pelo parasita.

Nesse contexto, a fotografia cumpre um papel fundamental. Com a proporção de tela mais quadrada, o diretor de fotografia Linus Sandgren foi cirúrgico na construção de uma atmosfera mais clássica, intimista e ao mesmo tempo claustrofóbica, escalando conforme o ardil se desenvolve e trazendo nítidas referências à estética clássica de vampiros e à pintura barroca.

No fim, o vermelho nos envolve em uma trama complexa que transborda para além do drama cínico. Ou seja, qualquer outra escolha de direção resultaria em uma narrativa completamente diferente.

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