ago 30, 2026

Sou o tipo de espectadora que curte cortes dinâmicos, montagem paralela e enredos cheios de conflito e reviravoltas. Logo, quando ouvi os primeiros comentários sobre Dias Perfeitos, tive a impressão de que não me conectaria ao longa. No entanto, Wim Wenders é um daqueles cineastas de peso, cujo conjunto da obra nos sentimos obrigados a investigar. Não de um jeito chato, mas como uma forma de reverência a uma trajetória artística digna de nota — e ele tem um estilo em que a ficção opera com a honestidade de um documentário, capturando a realidade crua.
E, para começo de conversa, o projeto de Dias Perfeitos inicialmente era para ser um documentário sobre os banheiros de Tóquio e os arquitetos renomados que os projetaram — inclusive, um dos banheiros que aparecem no longa foi assinado por ninguém menos que Tadao Ando, criador da belíssima Igreja da Luz na cidade de Ibaraki —, mas Wim Wenders viu ali outra possibilidade. Inspirado pelas percepções do pós-pandemia, o diretor e co-roteirista contou em entrevista que gostaria de retratar um personagem que não buscava vencer e conquistar, mas existir com essência e leveza.
E Hirayama é exatamente a materialização disso. Interpretado por Kōji Yakusho, que entrega uma atuação magistral, o personagem passa a maior parte do tempo em silêncio, confiando sua comunicação às expressões e à linguagem corporal, o que funciona como um elemento dramático radical. A economia de diálogos — concebida por Wim Wenders ao lado do co-roteirista Takuma Takasaki — constrói uma narrativa contemplativa, profundamente intimista e que desloca o foco do conflito tradicional para a urgência poética do cotidiano, nos conduzindo a reflexões sobre afeto, tempo e a busca por sentido.
O longa acompanha detalhadamente a rotina de Hirayama e o que vemos é um homem que encontra serenidade na simplicidade: ele cumpre suas funções com esmero, vive um dia de cada vez e cultiva o prazer nas coisas simples, como o sol atravessando a copa das árvores, a fotografia, a boa literatura e as músicas analógicas de suas fitas cassete.
Um exemplo dessa força expressiva ocorre nas cenas em que ele interage com Takashi (Tokio Emoto), seu jovem colega de trabalho. Mesmo diante das atitudes invasivas de Takashi, Hirayama conduz a relação sem perder o eixo, respondendo de forma generosa, quase inteiramente por meio de olhares e de uma paciência inabalável.
Além disso, são inúmeras as cenas em que Hirayama expressa prazer com coisas singelas, a ponto de colocarmos em perspectiva a nossa própria forma de lidar com a vida. Filosoficamente falando, é um filme que nos deixa ao mesmo tempo reflexivos e confortáveis com a constatação de que a vida é mesmo simples.
A trilha musical é um elemento que torna a narrativa magnética e imersiva, porque em muitos momentos podemos sentir exatamente o mesmo tesão do personagem ao dar o play e seguir para a rotina do dia com músicas como House of the Rising Sun no talo.
No fim, Dias Perfeitos é um filme magnético, do tipo que a gente não hesita em assistir mais de uma vez, e ele nos comunica que, em um mundo hiperconectado, o silêncio e a tecnologia analógica são refúgios de paz e apreciação da vida.
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