set 14, 2026

Ultimamente andei me cobrando por escrever sobre cinema nacional, então, seguindo a curadoria desta página, fazia sentido começar por Ainda Estou Aqui, obra-prima da cinematografia contemporânea dirigida por Walter Salles.
Ainda Estou Aqui é um drama histórico baseado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, que acompanha a dolorosa trajetória de Eunice Paiva e da família Paiva antes e depois de Rubens, o patriarca interpretado por Selton Mello, ser levado repentinamente pelas autoridades em plena ditadura militar, desaparecendo sem deixar rastros.
Rubens Beyrodt Paiva foi um deputado e engenheiro, sequestrado e morto pelos militares, deixando a esposa, Eunice Paiva, e cinco filhos por volta de 1971. O caso tornou-se um dos mais emblemáticos desaparecimentos políticos da ditadura militar brasileira, sendo que o atestado de óbito de Rubens Paiva foi fornecido à família apenas em 1996, após a aprovação da Lei dos Desaparecidos (Lei nº 9.140/1995).
A ausência como elemento dramático
Embora o longa relate uma violência de Estado brutal e sufocante, não há sangue e sequer cenas de tortura explícitas; tudo se constrói na dimensão psicológica, nas lacunas, nas ausências e, sobretudo, no silêncio. O lar, que antes pulsava vida, afeto e liberdade na praia do Leblon, paulatinamente se transforma em um território de tensão e vigilância, onde cada gesto contido traduz a busca por dignidade diante da tragédia e a luta irredutível de uma mulher que se recusou a desmoronar.
Silêncio como narrativa
Uma das passagens mais marcantes do longa, aliás, ocorre quando Eunice recebe a notícia da morte de Rubens e, logo em seguida, leva os filhos à sorveteria. Nesse momento, temos uma das atuações mais viscerais e humanas de Fernanda Torres, que sustenta toda aquela tragédia através da expressão, da lágrima discreta e da postura corporal. É uma sequência de uma força indescritível: no silêncio, materializa-se o horror ainda sendo digerido e a urgência de se manter firme diante dos filhos.
Outro momento marcante, em que o silêncio opera com uma carga dramática radical, ocorre no final, com Eunice Paiva já idosa e personificada magistralmente por Fernanda Montenegro; já com alzheimer e assistindo a uma reportagem sobre a ditadura, é como se Eunice tivesse um lampejo de lucidez, sorrindo na foto que encerra o filme, mantendo toda a dignidade que a torna uma heroína tão cativante.
Fotografia e direção de arte
Alguns dos aspectos mais refinados do longa residem em sua direção de arte e fotografia. A textura da imagem remete diretamente à estética de arquivo — com aquela granulação característica que nos transporta direto para os anos 1970 —, complementada por uma paleta de cores orientada por tons frios, acinzentados e beges. Essa escolha cromática traduz com precisão a atmosfera melancólica e opressiva do luto, refletindo a tensão política que se instaura com força logo após o sequestro de Rubens Paiva.
Outro aspecto finíssimo da produção é a opção por rodar o filme inteiramente em película de 35 mm. Essa escolha assegura a textura e a granulação orgânica da imagem, conferindo maior imersividade e realismo a uma época marcada pela tecnologia analógica.
Humberto Mauro e o diálogo com o realismo brasileiro
As cenas solares do início também são carregadas de nostalgia e revelam uma característica marcante da cinematografia de Walter Salles: sua assinatura inconfundível em pintar quadros do povo brasileiro, sempre atento à multiculturalidade e aos regionalismos que formam o tecido social do país.
Celebrado por cartografar o Brasil profundo, em Ainda Estou Aqui Salles desloca seu olhar para o contexto urbano da classe média carioca, mas sem jamais perder sua marca registrada: um humanismo irretocável e a total recusa por artificialismos. É justamente na forma de contar histórias que Walter Salles dialoga, em muitos aspectos, com a linhagem de Humberto Mauro (Volta Grande, Minas Gerais, 1897 – 1983).
Muitas vezes mencionado como o “pai do cinema brasileiro”, Mauro foi pioneiro na defesa de uma linguagem autêntica, distanciada de moldes estrangeiros, capaz de registrar com honestidade as nuances, as dores e as singularidades do povo — erguendo, assim, as bases da tradição do realismo brasileiro.
Aspectos deste mesmo realismo podem ser observados em Ainda Estou Aqui, através da resiliência silenciosa de Eunice Paiva (interpretada com uma profundidade ímpar por Fernanda Torres), do detalhamento quase documental do cotidiano familiar e do compromisso com o fato histórico.
Um marco para o cinema brasileiro
Vencedor na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2025, prêmio até então inédito para a cinematografia nacional, Ainda Estou Aqui se consolidou como um marco de nossa indústria. Ao resgatar a memória da ditadura militar sem ceder ao sensacionalismo, Walter Salles entrega uma obra imprescindível e que reafirma que é preciso lembrar para nunca mais repetir.
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