Uma análise sobre a estética de Christopher Nolan, a urgência da crise climática e o vínculo humano como última forma de resistência.
Há 17 horas

Analisar Interstellar enquanto atravessamos a crise do super El Niño é um exercício cheio de incômodos. Primeiro, porque o longa de Christopher Nolan trata de um mundo em colapso ecológico, onde uma praga ameaça a vida na terra; segundo, porque essa crise é atravessada por um negacionismo científico pernicioso e capaz de subtrair tecnologias essenciais para a sobrevivência, além de impedir a formação de indivíduos aptos a enfrentar os maiores desafios da humanidade. A ficção é de 2014, mas permanece urgente e assustadoramente realista.
Negacionismo científico
O épico acompanha a jornada de Cooper (Matthew McConaughey), um ex-piloto e engenheiro reduzido a agricultor, que vive com sua família sem grandes perspectivas, asfixiado pela poeira de um planeta Terra decadente. Nesse futuro distópico, o negacionismo não é apenas cultural, mas institucionalizado: a própria escola reescreve a história para inibir a ciência e direcionar os jovens exclusivamente ao trabalho no campo.
Esse contexto se sustenta, principalmente, na cena em que Cooper vai à escola de Murphy (Mackenzie Foy) para uma conversa com a professora e o diretor sobre a postura da filha ao levar um livro sobre a missão Apollo para a escola. Durante o encontro, a professora afirma que tal missão foi uma propaganda com o objetivo de falir a União Soviética. Quando Cooper percebe o negacionismo científico implícito na situação, ele decide prestigiar a filha por sua iniciativa e persistência científica, no que a garota ganha uma suspensão.
A tragédia familiar
Nesse meio tempo, eventos gravitacionais estranhos ocorrem no quarto de Murphy, que é incentivada por Cooper a investigar a situação que acaba os levando, pai e filha, até as instalações clandestinas da NASA, onde Cooper é recrutado para uma missão secreta e arriscada: atravessar um buraco de minhoca perto de Saturno em busca de um novo lar para a espécie humana.
É aqui que a tragédia ecológica entra em simbiose com a tragédia familiar. A travessia interestelar não garante êxito e exige que Cooper abandone os filhos sem prazo de retorno, o que causa uma mágoa profunda e duradoura em Murphy. Nesse cenário, a relatividade física deixa de ser uma equação abstrata para se tornar um abismo entre Cooper e sua família, que enfrenta o peso emocional e o luto por sua partida. No longa, o tempo atua como um dos recursos mais importantes e escassos da existência, convertendo-se, a certa altura, em um dos mais cruéis antagonistas.
É no planeta de Miller que temos uma noção da brutalidade do tempo, neste planeta cercado por água, cada 1 hora equivale a 7 anos na Terra.
A poeira e a névoa como metáforas narrativas
O longa envolve conceitos complexos da física, como a Teoria da Relatividade e a mecânica dos buracos negros. Por conta disso, contou com a consultoria científica do renomado físico e vencedor do Prêmio Nobel, Kip Thorne, que garantiu que a representação visual e teórica do espaço mantivesse rigor científico.
No entanto, a grande sacada do filme reside na sua textura e sensorialidade. Em Interstellar, a poeira e a névoa não são apenas condições ambientais; são dois estados estéticos e existenciais do próprio tempo: a poeira observada no planeta Terra representa o colapso e o passado que se desfaz; a névoa, observada no planeta de Mann, é o futuro opaco, as mentiras que envolvem a missão e a necessidade de manter a fé quando tudo parece perdido.
O cinema analógico de Nolan
Essa densidade narrativa encontra convergência na própria direção visual do projeto. Christopher Nolan é um diretor conhecido por sua defesa do cinema analógico, de modo que em seus trabalhos existe toda uma recusa ao uso de efeitos digitais. O diretor constrói um naturalismo tátil e melancólico ao optar por efeitos práticos e pela captação em 35mm e IMAX 70 mm, o que garante textura e uma experiência imersiva. Tudo isso sustentado por uma paleta de cores que vai dos tons terrosos aos brancos e acinzentados.
Revisitar essa obra em meio à nossa própria crise climática e ao avanço de uma extrema direita negacionista, é um exercício incômodo mas necessário. A poeira que cobre a fazenda de Cooper já não parece uma imagem distante da ficção, mas o espelho de uma realidade que começa a turvar o nosso próprio horizonte. Interstellar nos lembra que enfrentar o fim do mundo exige confiança na ciência e coragem, mas também que a ciência é indissociável do vínculo humano.
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