Entre a futilidade da arte contemporânea e a brutalidade de um trauma não superado, a anatomia de um Neo noir impecável.

Acho que nunca comentei por aqui, mas um dos subgêneros que mais aprecio no cinema é o Neo-Noir. Herdeiro do film noir clássico — aquele consolidado entre as décadas de 1940 e 1950 em Hollywood, fortemente influenciado pelo Expressionismo Alemão —, o Neo-Noir resgata essa tradição adaptando-a ao contexto do cinema contemporâneo.
Ou seja: se o noir clássico utilizava becos urbanos e cinismo para expor a falência moral da sociedade, o neo-noir interioriza essa decadência, deslocando o foco para a dimensão psicológica das personagens. Além disso, o neo-noir caracteriza-se pelo uso de paletas de cores hiperestilizadas e contrastes. Os cenários refletem o estado mental das personagens e a decupagem tende a ser mais introspectiva, com planos longos, ângulos distorcidos, enquadramentos claustrofóbicos e o uso da profundidade de campo para enfatizar a solidão urbana e a vigilância constante.
Um exemplo muito bem construído desse subgênero pode ser visto em Animais Noturnos (2016), um suspense psicológico neo-noir baseado no livro Tony & Susan, escrito pelo autor norte-americano Austin Wright. Na adaptação para o cinema, Tom Ford, diretor e roteirista do longa, nos entrega uma metanarrativa envolvente com uma direção de arte impecável. É um thriller sobre vingança elegante, onde a arte é usada como resposta aos traumas do passado.
O longa acompanha a trajetória de Susan (Amy Adams), uma galerista bem-sucedida que não se sente feliz com a própria vida e se vê confrontada pelo passado e por suas escolhas ao receber o manuscrito de um romance escrito por seu ex-marido, Edward (Jake Gyllenhaal).
A trama se desenvolve de maneira não linear e se sustenta em três pilares: o presente, com Susan lendo e sendo atravessada pelo manuscrito; a história brutal do romance; e os flashbacks do passado que contextualizam a relação da obra com a realidade. É como um quebra-cabeça que vamos montando a partir dos fragmentos e camadas do roteiro, o que culmina em uma única narrativa coesa.
O prólogo é impactante. A sequência em câmera lenta com mulheres obesas felizes dançando nuas, apenas com chapéu e adereços de majorette, funciona como uma provocação ácida, e o fato de isso vir de Tom Ford deixa tudo ainda mais explícito. Sendo um homem que ascendeu como designer da Gucci em meio ao luxo e à ditadura estético-corporal da alta moda, a abertura subverte esses padrões e estabelece um contraste com a vida de Susan e seu universo vazio, estéril e asséptico.
Conforme a narrativa avança, esse prólogo ganha outras camadas. A certa altura, as mesmas mulheres obesas surgem na forma de estátuas, só que em posições peculiares, dentro do contexto de uma exposição inaugurada na galeria de Susan. Observa-se aí uma espetacularização fetichista daquilo que é visto como diferente em oposição ao manuscrito visceral de um artista que trabalha com a própria verdade para pautar suas criações; o que também pode ser lido como uma crítica mais ampla ao esvaziamento da arte contemporânea.
É interessante observar como a ficção dentro da ficção dialoga com a realidade dos personagens, embora haja um contraste absurdo entre a Los Angeles fria, luxuosa e asséptica de Susan e a violência poeirenta e descontrolada do Texas retratado no manuscrito. No fim, percebemos que a brutalidade da história serve como metáfora para traduzir a devastação emocional causada por Susan ao abandonar Edward e ao abortar o filho que teriam juntos, optando pelo relacionamento com um homem que correspondia aos padrões de ambição e virilidade que ela, até então, considerava ideais.
O longa rende discussões sobre estética, controle, dor, escolhas e masculinidade, sendo este último tópico o de maior destaque. A discussão sobre masculinidade se sustenta no registro da violência enquanto dispositivo de dissecação sobre como a incapacidade de corresponder ao estereótipo de gênero de ser forte e provedor consome o homem por dentro. Neste contexto, Edward, rejeitado no passado por ser um “homem fraco” e idealista, utiliza o manuscrito para confrontar Susan, mostrando que a força que ela tanto valorizava era, na verdade, uma ilusão predatória.
A trilha musical é monumental e complementa com precisão a atmosfera melancólica e introspectiva do longa, desembocando em um final onde a mera ausência consagra o desfecho trágico da protagonista.
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